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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Por que não o meio termo?

Foto: Israel Heldt

Não é nenhuma novidade que a taxa de ocupação dos estádios no Brasil bem como a quantidade absoluta de expectador por partida é baixa se comparada com ligas de outros países. Se o parâmetro for a Premier League (Inglaterra), Bundesliga (Alemanha), Ligue 1 (França), La Liga (Espanha) e Major League Soccer (EUA) a diferença é gritante. No entanto estamos abaixo de ligas menos tradicionais como a Liga MX (México) Chinese Super League (China) e, pasmem, Championship (segunda liga inglesa). A seguir, uma tabela com dados apresentados pela Pluri Consultoria sobre o ano de 2013.

Liga
Público médio
Taxa % de ocupação média
Bundesliga (Alemanha)
42.646
95
Premier league (Inglaterra)
35.921
95
La Liga (Espanha)
28.616
83
Major League Soccer (EUA)
18.845
91
Liga MX (México)
24.245
53
Chinese Super League (China)
18.740
44
Champoionship (2ª Inglesa)
17.660
67
Brasil
14.950
38

São vários fatores que influenciam na presença de público nos estádios. Podemos apontar entre outros fatores a falta de segurança, dificuldade de acesso, qualidade dos estádios, qualidade do espetáculo e valor cobrado. A que se considerar também que o ano de 2013 foi um ano atípico para o Brasil. Vários estádios estavam sendo reformados, entre eles o Beira-Rio, e os clubes mandaram seus jogos em outras praças. No entanto, os números de anos anteriores mostram que não houve grande diferença. Com a construção de novas arenas e reformas de outras tantas para sediar a Copa de 2014, esperava-se que este ano houvesse um aumento considerável dos públicos nos jogos do Campeonato Brasileiro. Não foi o que aconteceu nas primeiras rodadas. Tivemos público e taxa de ocupação ainda muito baixa. Parece que o fator “novidade” não foi suficiente para alavancar estes dados.

Embora alguns indicadores permaneçam inalterados, como segurança (ou falta de) e qualidade do espetáculo, houve uma melhora no conforto oferecido nos estádios que veio acompanhada de um aumento no custo. Não me refiro apenas ao valor dos ingressos, mas também ao valores praticados no serviço de “catering”, anglicismo usado para designar serviço de comidas e bebidas oferecido nas novas arenas. Embora tenha havido certa melhoria no serviço oferecido, o poder aquisitivo do brasileiro permanece o mesmo. Pelo que ser percebe nestas primeiras rodadas, os Clubes não conseguiram chegar a um ponto de equilíbrio na equação público x preços praticados. Além do desequilíbrio bastante claro, os números do campeonato brasileiro da última rodada, mostram também um diferença de estratégia na definição dos preços. Há Clubes que optam por praticar valores mais caros em detrimento da quantidade de expectadores e outros que optam por ter públicos maiores com receitas proporcionalmente inferiores. A seguir apresento dados do programa “Redação SporTV”.


Jogo
Preço médio R$
Público
Renda
Fluminense x Vitória
13,55
44.875
609.195
São Paulo x Coritiba
16,45
31.886
524.420
Internacional x Sport
34,30
17.974
616.625
Flamengo x Palmeiras
46,76
16.318
763.125

Embora o valor praticado não seja a única variável, salvo melhor juízo, acredito ser o principal fator na definição de público. Principalmente no início do certame em que o aproveitamento de cada equipe não é primordial na motivação de ir ao estádio. Diante disso, defendo a ideia de que os Clubes precisam estar atentos a estes dados bem como devem definir sua estratégia em priorizar a renda ou público, na definição do valor dos ingressos. Como torcedor colorado, gostaria de abrir este debate em relação ao Inter.

Percebe-se que a direção colorada optou pela renda em detrimento do público. Diferente do Fluminense que fez a opção oposta. A mim parece uma estratégia equivocada que pensa tão somente no imediatismo. Prioriza o lucro ao invés de valorizar seu torcedor, razão maior da existência do Clube. Sobretudo os sócios da categoria “Campeão do Mundo” que permaneceram fiéis durante todo o período em que o Beira-Rio esteve fechado para reforma. Para os torcedores não sócios, preços altos desestimulam a ida ao estádio. Preço mais acessível leva mais público ao estádio, torna o espetáculo mais bonito e empolgante, fideliza o torcedor, fazendo com que ele retorne outras vezes, podendo se transformar em sócio. Sem contar que potencializa o consumo de produtos licenciados e serviços ofertados. Não tenho a pretensão de ser o dono da verdade e afirmar que o preço praticado pelo Fluminense é o ideal e tampouco que o Internacional está totalmente errado. Apenas gostaria de levantar o questionamento se não seria este o momento adequado para buscar um ponto de equilíbrio entre o valor do ingresso a ser praticado pelo Inter e o valor que o torcedor está disposto e em condições de pagar. 

Por que não o meio termo?


Adir Carlos Rodrigues 
Sócio colorado desde 1999, matrícula 004406.00 e conselheiro desde 2006. Graduado em Administração, Pós-graduado em Segurança da Informação, Servidor Público Federal. 

 "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la" (Voltaire). 

Twitter: @adirpoa
Facebook: Adir Carlos Rodrigues

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Glória e Honra: o time que não queria perder

Por Mário Cesar Cassel, conselheiro do Sport Club Internacional


Nos dias de hoje, em que quase todos os atletas de futebol almejam buscar euros no Velho Continente, às vezes nos deparamos com situações insólitas como a do jogador brasileiro Rafael. Na final dos XXX Jogos Olímpicos, de Londres, depois de entregar o primeiro gol para os mexicanos, ficou indignado com a reclamação do companheiro Juan por ter quase entregue mais uma oportunidade para os mexicanos nos últimos minutos de jogo. Posteriormente, depois de ser substituído, aparecia no banco de reservas como se nada houvesse acontecido.

 Bem diferente foi a posição dos jogadores da equipe ucraniana do Start FC, que preferiram a morte a entregar um resultado para a Seleção de Futebol das Forças Armadas da Alemanha. Você conhece esta história? Vamos ao fato.

Com a invasão nazista na União Soviética, durante a Operação Barbarossa, em 22 de junho de 1941, a Ucrânia (um dos países que compunham as Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi tomada pelas tropas do Exército Alemão, que levou milhares à morte e aos campos de concentração. Centenas de presos soviéticos foram liberados nas ruas de Kiev, porém era proibido a eles trabalharem, podendo apenas ficar vagando na mais cruel das situações, famintos e esfarrapados).

Kiev, após ataques


Na capital Kiev, havia um clube de futebol (o mais popular daquele país) chamado Dínamo FC, que, como tudo que acontecia no país, parou de funcionar. Ninguém sabia onde foram para os seus jogadores – nem podiam se preocupar com isto. Certo dia um torcedor fanático pelo Clube, Josef Kordic – de origem alemã, dono de uma padaria e que tinha caído nas graças dos oficiais nazistas, encontrou esfarrapado e faminto o goleiro que tantas vezes aclamava nos memoráveis jogos do Dínamo e que, inclusive, tinha lhe dado um autógrafo há poucos anos. Levou-o para sua casa, saciou a sua fome e lhe deu roupas descentes. No dia seguinte, ele estava trabalhando na limpeza da padaria, onde também passou a residir.

Conversando com Nicolai Trusevich – este era nome do goleiro, soube que vários de seus colegas de Clube estavam na mesma situação que ele fora encontrado no dia anterior. Josef Kordic fez, então, que o goleiro passasse a procurar um a um os demais jogadores. Passadas algumas semanas, oito atletas do elenco do Dínamo e três do Lokomotiv estavam trabalhando na padaria, tendo sido achados nas ruas de Kiev e em outras cidades da cercania. Nosso “Oscar Schindler” começa a desafiar os nazistas para jogos contra o time de sua padaria. Os “empregados” da padaria trabalhavam pela manhã e treinavam à tarde. Estava fundado o Start Foot-Ball Club (Start era o nome da padaria).

O Start e um de seus adversários

Os nazistas aceitaram o desafio, acreditando que poderiam atrair a simpatia dos moradores locais. No entanto, começa aqui um caminho tortuoso que acabaria mal. Depois de conseguirem uniforme para o time (camisetas vermelhas e calções brancos. Nota: que coincidência...), no dia 7 de junho de 1942 fizeram seu primeiro jogo. Embora estivessem mal fisicamente – por um ano de fome e condições adversas, venceram uma guarnição húngara por 6 x 2. Na seqüência, jogaram contra uma guarnição romena, com nova vitória por 11 x 0. Depois, foram mais quatro jogos contra outras equipes, todos vencidos de goleada (Start 9 x 1 Militares Operários Alemães da Estrada de Ferro; Start 6 x 0 PGS; Start 5 x 1 MSG; Start 3 x 2 MSG, na revanche).

Em 6 de agosto de 1942, o Start FC joga pela primeira vez contra uma equipe do Exército Alemão. O adversário foi o Flahelf (Os 11 da Artilharia Antiaérea). Era a chance da vingança. O jogo disputado no Zenit Stadium foi muito violento por parte dos alemães, que se aproveitaram do fato que o árbitro era um oficial nazista. Antes do início do jogo os atletas perfilados deveriam fazer a saudação nazista: os atletas do Star se negaram a realizar tal ato. Ao término do primeiro tempo a vantagem era do Start por 2 x 1. No intervalo, a equipe recebeu em seu vestiário a presença de alguns oficiais nazistas que sugeriram que perdessem o jogo. Voltaram a campo e após os 45 minutos finais o placar apontava 5 x 3 para o Start, sendo que no último minuto do jogo o dianteiro Aleksei Klimenko passou pelos zagueiros alemães e pelo goleiro e, quando todos pensavam que ele entraria gol a dentro com a bola, ele parou sobre a linha de gol e deu chute para ..... o centro do campo. E o Zenit Stadium veio abaixo!

O Start jogaria ainda mais uma partida, ganhando de 8 x 0.

A partir daí, os jogadores começam a ser caçados pelos nazistas. Nikolai Korothykh foi o primeiro a morrer, em 17 de agosto de 1942, há exatos 70 anos; depois de serem presos, os outros 10 jogadores foram levados para o campo de concentração de Sirtez; a seguir, Ivan Kuzemko foi executado por uma brigada alemã; orgulhoso com o que tinham conseguido, Alexsei Klimenko foi assassinado a sangue frio no pátio do campo de concentração; no dia seguinte seria vez do goleiro Nikolai Trusevich. A partir daí, foram assassinados Georgy Timofeyev, Pavel Komarov, Vasiley Sukharev, Mikhail Putistin e Mikhail Melnik.

Quando o exército de Stalin derrotou os nazistas poderia se pensar que o inferno para aqueles jogadores havia acabado, mas não foi assim... Os jogadores foram acusados de colaborar com os nazistas, fornecendo-lhes pão e jogando futebol com o inimigo durante a guerra. Os três jogadores sobreviventes – Makar Goncharenko, Feodor Tyutchev e o reserva Sviridowsky, depois de julgados, foram deixados em liberdade com a promessa do mais absoluto silêncio sobre o assunto.

Tempo passou e aquelas pessoas que assistiram ao jogo de 6 de agosto de 1942 passaram a ter passe livre em todos os jogos do Dínamo de Kiev. Os atletas do Start F. C. passaram a ser considerados heróis da pátria, havendo monumentos aos mesmos em várias partes do país. No Estádio do Zenit existe um monumento com os dizeres: “AOS JOGADORES QUE MORRERAM COM A CABEÇA EM PÉ DIANTE DA INVASÃO NAZISTA”: 


Em 1981 o Zenit Stadium passou a se chamar Star Stadium. Esta história rendeu vários filmes: 

- DOIS MEIO-TEMPOS NO INFERNO: húngaro, 122 minutos, 1961, Zoltan Fabri;
- TERCEIRO TEMPO: russo, Mos film, 1962, (sem outros dados);
- FUGA PARA A VITÓRIA: americano, 1982, (adaptação da história), Paramount, 117 minutos, década de 80, John Huston. O s papéis principais: Michael Caine, Sylvester Stallone, Max Von Sidow, Daniel Massey, Pelé, Bob Moore, Osvaldo Ardiles.
MATCH: russo, 2012, Andrey Maliukov

 

 
 Episódio reproduzido no cinema.

domingo, 22 de julho de 2012

Asfixia financeira nos clubes europeus

Por Berenice Corsetti, conselheira do Sport Club Internacional

Em função de atividades acadêmicas, estive duas semanas entre Espanha e Portugal, onde ouvi muita coisa em relação à situação dos clubes europeus que gostaria de compartilhar. O problema de gestão aliado à crise geral na Europa tem sido apontado de maneira muito forte. Os três principais clubes de Portugal - Benfica, Sporting de Lisboa e Porto - devem 400 milhões de euros ao sistema bancário. Apenas o Porto tem conseguido gerar um pouco mais de receitas, graças ao mercado de transferências, mas que não é solução de uma gestão sustentável. 
O destaque vem do Sporting de Braga, que, mesmo não estando entre os três grandes, tem surpreendido pelo que tem conseguido de desempenho nas competições, tendo uma direção que vem adotando ações interessantes de gestão. E ambiciona mais. 
Na Espanha, pelas notícias, a dívida dos clubes é ainda maior, chega a 600 milhões de euros. A crise da Espanha tem atingido muito os clubes que não ficarão livres dos ajustes do governo para tentar tirar o país da recessão. Eles terão que pagar suas dívidas até 2020. Caso contrário, serão expulsos da Liga de Futebol Profissional (LFP) e poderão se extintos.  Do total da dívida dos clubes, 489 milhões de euros referem-se aos times da primeira divisão. A imprensa local relata que a maior dívida é a do Atlético de Madrid: 115 milhões de euros. Na segunda posição, aparece o Barça, com 84 milhões. O Real Madrid não tem dívidas com o governo espanhol.
No restante da Europa Ocidental, o Chelsea é quem se destaca por sua situação um pouco melhor, porém a era do dinheiro farto está com os dias contados. Os gastos com contratações têm sido muito reduzidos.  Não é de estranhar que os jogadores estejam querendo jogar no Brasil. Diante desta situação, fico pensando muito no nosso Inter. Temos um caminho importante a ser traçado na área da gestão.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POLARIZAÇÃO (OU ABISMO)


Por Mário Cesar Cassel, conselheiro do Sport Club Internacional

A imprensa esportiva brasileira (não ligada a Rede Globo) começa a despertar para o enorme abismo que começa a se desenhar nas mudanças dos direitos de transmissão (quota de TV) dos próximos campeonatos brasileiros a favor de Flamengo e Corinthians.

Uns falam em R$ 100 milhões/ano, outros R$ 110 milhões/ano, outros, ainda em R$ 114 milhões/ano para cada um dos dois clubes. Já o Presidente do Corinthians fala em R$ 130 milhões/ano. Em curto prazo, os reflexos serão danosos para os demais clubes.



O Clube dos 13 que negociava com a Rede Globo os direitos de transmissão do campeonato brasileiro nos anos anteriores, já vinha privilegiando alguns clubes de maior torcida no Brasil (e com o maior número de assinantes do sistema pay-per-view). Os clubes estavam distribuídos em grupos, com pagamentos anuais diferenciados:

1º grupo: R$ 21 milhões/ano – Flamengo, Vasco da Gama, Corinthians, Palmeiras e São Paulo;
2º grupo: R$ 18 milhões/ano – Santos;
3º grupo: R$ 15 milhões/ano – Inter, Grêmio, Cruzeiro, Atlético/MG, Fluminense e Botafogo.

Com a implosão do Clube dos 13, a negociação foi feita pela Rede Globo diretamente com os clubes. Existem muitas versões sobre os valores pagos. No entanto, o certo que eles vigorarão para os campeonatos de 2012, 2013, 2014 e 2015, e ficarão entre os seguintes valores:

1º grupo
: R$ 100, ou 110, ou 114 milhões/ano – Flamengo e Corinthians;
2º grupo: R$ 70, ou 78 milhões/ano – Santos, São Paulo, Palmeiras e Vasco da Gama;
3º grupo: R$ 46, ou 47 milhões/ano – Inter, Grêmio, Cruzeiro, Atlético/MG, Fluminense e Botafogo;
4º grupo: (R$ 30 milhões/ano) – Coritiba, Atlético-PR, Goiás, Portuguesa, Guarany, Sport, Bahia e Vitória;
5º grupo: (negociação ano a ano) – Avaí, Figueirense, Ceará, Atlético-GO e América-MG.

A esses valores some-se o patrocínio da PETROBRÁS com o Flamengo (existente há 25 anos), recentemente renovado por R$ 14,2 milhões/ano; leve-se em conta, ainda, o contrato (de 2010 a 2014) assinado pela Nike com o Corinthians, no valor de R$ 16,5 milhões/ano (mais 18% da venda de material esportivo com o nome clube).

A forma de negociação para o “brasileirão” foi muito astuta: ela começou com os clubes do 3º grupo que, ao passarem de R$ 15 milhões/ano para R$ 46 milhões/ano (aumento de mais de 200% em relação ao ano anterior), acharam que estavam fazendo um grande negócio e não se deram conta de que estavam, na verdade, “entrando numa fria”.

Posteriormente, continuou com os clubes do 2º grupo, que passaram de R$ 18 milhões/ano para R$ 78 milhões/ano (aumento de mais de 330% em relação ao ano anterior), que também acharam estar fazendo um grande negócio.

Finalmente, a liberdade de negociar (ou privilegiar) com o Flamengo e Corinthians.

Dentro de alguns anos (é possível) estaremos no 4º grupo e, mais adiante (ainda), no 5º. Em 40 anos, nossos descendentes estarão torcendo pelo Flamengo ou pelo Corinthians. Vide o que aconteceu com o futebol gaúcho do meio do século passado, a seguir.

Até o final da década de 50 (início da década de 60) do século passado, para cidades longínquas de Porto Alegre (eu morei em Uruguaiana e São Borja), era quase impossível sintonizar emissoras da capital. No entanto, o mesmo não acontecia com as emissoras do Rio de Janeiro (rádios Nacional e Tupi) e São Paulo (Rádio Tupi). Essas emissoras “entravam” muito bem nos receptores do interior gaúcho – juntamente com as emissoras “porteñas”.

Isso facilitava o conhecimento das equipes cariocas e paulistas, além de seus jogadores; ainda o fato das seleções nacionais serem formadas somente por atletas desses dois Estados. Santos e Botafogo eram os dois grandes clubes brasileiros.

Tudo isso condicionava as pessoas a se interessarem (talvez, até torcerem) por clubes do centro do país. Os “times de botão/futebol de mesa” da gurizada, invariavelmente, tinham nomes desses clubes (o “meu” era o Flamengo).

No entanto, a grande paixão eram os clubes de suas cidades. Rio Grande, São Paulo e Rio-Grandense (em Rio Grande), Ferro-Carril, Uruguaiana e Sá Viana (em Uruguaiana), Brasil, Pelotas e Farroupilha (em Pelotas), Riograndense e Internacional (em Santa Maria), Flamengo e Juventude (em Caxias), 14 de Julho e Gaúcho (em Passo Fundo), Cruzeiro e Internacional (em São Borja), dividiam os adeptos do futebol de suas cidades.

Até cidades menores tinham clubes com sua fiel torcida (Taquarense, Taquariense, Lajeadense, Avenida, Santa Cruz, Montenegro, Estrela). Na época, poucos do interior torciam pela dupla Gre-Nal.

A partir dessa década de 60, com as emissoras da capital passando a ter maior potência (Farroupilha, Difusora, Gaúcha e, posteriormente, a Guaíba), a situação começa a mudar, passando a pender para os clubes da capital. Aos poucos, os clubes do centro do país são esquecidos e começa a “grenalização” dos adeptos do futebol gaúcho. Os clubes do interior começam a ficar em segundo plano, mesmo porque não conseguem acompanhar a profissionalização existente no esporte.
Nos dias atuais, amigos de Novo Hamburgo afirmam que o clube da cidade tem torcida ao seu favor de gremistas quando joga contra o Internacional (e vice-versa). Quando joga contra outros clubes, quase ninguém vai ao estádio.


FUTEBOL EUROPEU
Todas as “ligas”, com exceção da espanhola e da italiana, negociam os direitos de TV de forma coletiva, com regras bem claras e transparentes, para que não se crie distorções gigantescas entre as equipes. Na Espanha há uma enorme diferença entre os dois maiores clubes do país (Real Madrid e Barcelona) em relação aos outros. Os dois clubes levantaram 23 campeonatos espanhóis nas últimas 26 edições do mesmo (FUTEBOL FINANCE, 2010).

A mesma fonte cita os 10 maiores faturamentos dos clubes europeus quanto aos direitos de TV para a temporada de 2009-2010:

Barcelona (ESP)-----------------€ 140 milhões/ano;

Real Madrid (ESP)---------------€ 140 milhões/ano;

Internazionale (ITA)------------€ 75 milhões/ano;

Milan (ITA)-----------------------€ 75 milhões/ano;

Juventus (ITA)-------------------€ 75 milhões/ano;

Manchester United (GBR)-----€ 58,2 milhões/ano [1º colocado ano anterior];

Liverpool (GBR)------------------€ 56,2 milhões/ano [2º colocado ano anterior];

Chelsea (GBR)--------------------€ 53,9 milhões/ano [3º colocado ano anterior];

Arsenal (GBR)--------------------€ 52,5 milhões/ano [4º colocado ano anterior];

Everton (GBR)--------------------€ 50,6 milhões/ano [5º colocado ano anterior].

Nos campeonatos da Espanha e da Itália a diferença entre os que mais recebem e os que menos recebem ultrapassam 50%.

Nos campeonatos da Inglaterra, da França e da Alemanha a diferença entre os que mais recebem e os que menos recebem não ultrapassam 50%.
ESPANHA
O Campeonato Espanhol vem sendo realizado desde 1928, havendo até hoje apenas nove clubes que venceram as 80 edições do mesmo (o Brasil, desde 1971, tem 13). De 1936 a 1938, em vista da Guerra Civil naquele país, não foram realizados os campeonatos respectivos.

Os vencedores são: Real Madrid (31 títulos), Barcelona (21), Atlético Madrid (9), Atlético Bilbao (8), Valencia (6), Real Sociedad (2), La Coruña (1), Sevilla (1) e Real Betis (1).

Com a criação de “LA LIGA”, a partir da temporada 1971-1972, começa uma nova era no futebol espanhol. Os anos vão passando e os clubes começam a negociar diretamente os direitos de transmissão de seus jogos. Os “direitos” são comprados anualmente pela ESPN (com um aumento médio de 8% de um ano para outro).

E aí começa o abismo hoje existente entre Real Madrid e Barcelona em relação aos demais: enquanto Real Madrid e Barcelona recebiam € 140 milhões/cada na temporada 2009-2010 (mais de 50% do total dos “direitos”), Atlético de Madrid (em 1974 foi campeão intercontinental) e Valencia receberam 40,5 milhões/ano. Os demais 18 clubes, em média, recebem € 11,8 milhões/ano/cada. O “pequeno” Xerez recebia menos de 8% da quantia recebida pelos dois maiores. Da temporada 2004-2005 até a recém finda 2010-2011, Barcelona e Real Madrid receberam um total de € 836 milhões, de um total de € 1,6 bilhão.

Das 40 edições disputadas de 1971 (ano da criação de “La Liga”) até os nossos dias, o Real Madrid venceu 17, enquanto o Barcelona vencia 13 (totalizando 30 campeonatos em 40 edições). Os dois clubes foram “furados” pelo Atlético de Madrid [3X, 1972-73, 1976-77 e 1995-96], Atlético Bilbao [2X, 1982-83 e 1983-84], Valencia [2X, 2001-02 e 2003-04], Real Sociedad [2X, 1980-81 e 1981-82] e La Coruña [1999-2000].

A relação entre o 1º e o 4º colocados nas últimas três temporadas é alarmante:

2008-2009: 1º, Barcelona/87 pontos; 2º, Real/78; 3º, Sevilla/70; 4º, Atlético Madrid/67;

2009-2010: 1º, Barcelona/99 pontos; 2º, Real/96; 3º, Valencia/71; 4º, Sevilla/63;

2010-2011: 1º, Barcelona/96 pontos; 2º, Real/92; 3º, Valencia/71; 4º, Villareal/62.

É de pasmar que nas últimas 26 edições de “La Liga” (com a disparidade, a cada ano, se tornando cada vez maior) os dois clubes venceram 23 vezes!... Destaque, também, para a diferença de pontos entre o campeão e os terceiros e quartos colocados.

Nos últimos 20 anos da Champions League (antigamente Copa dos Clubes Campeões da Europa, depois UEFA Champions League) esses dois clubes venceram 7 vezes: o Barcelona, 4 vezes (1991-92, 2005-06, 2008-09 e 2010-11), enquanto que o Real Madrid, 3 vezes (1997-98, 1999-00, 2000-01).

No Campeonato Mundial Interclubes: Barcelona (2009).

Pela Copa Intercontinental: Real Madrid (3X, 1960, 1998 e 2002).

Em contrapartida, alguns clubes estão “acabando”: em 2004, o Las Palmas entrou em falência; Levante, Santander e Real Sociedad estão próximos disso; o Valencia, nos últimos anos, acumulou dívidas de (incríveis) € 550 milhões.

No entanto, este quadro parece que chegará a um fim!...

Em vista da intensa pressão (clubes, torcedores, políticos, imprensa, etc.), Real Madrid e Barcelona concordaram em diminuir suas receitas (em cerca de 24% do que recebiam), a vigorar a partir da próxima temporada.


ITÁLIA
O primeiro campeonato italiano foi realizado em 1898. De lá para cá, foram disputadas 109 edições. Não houve campeonato nas temporadas de 1916-17, 1917-18, 1918-19 (I Guerra Mundial), 1943-44 e 1944-45 (II Guerra Mundial). O título de 2004-05, em vista de comprovadas “falcatruas”, foi tirado da Juventus (que, até, foi rebaixada por isso), ficando o “scudetto” sem dono nessa temporada.

Na Itália a situação era muito semelhante à Espanha. No caso, eram três os clubes privilegiados pelos direitos de transmissão pela TV: Juventus, Milan e Internazionale. Os “direitos” são comprados anualmente pela Empresa MEDIASET.

Na temporada 2008-2009, dos € 2,1 bilhões negociados com os 42 clubes [1ª Divisão, com 20 clubes, e 2ª Divisão, com 22], os três clubes embolsaram € 75 milhões/cada (€ 225 milhões do total).

Desde a década de 70, essas vantagens para “La Vecchia Signora”, os “Rossoneri” e os “Nerazurri” vem aumentando ano a ano. Os títulos acompanham essa evolução.

Em 40 anos, 32 “scudetti” para o “trio privigeliado”: Juventus (15), Milan (9) e Internazionale (8). Os outros vencedores nesse período: Lazio, 2 vezes (1973-74 e 1999-00), Roma, 2 vezes (1982-83 e 2000-01), Napoli, 2 vezes (1986-87 e 1989-90) e Torino (1975-76) – um invalidado da Juventus, na temporada 2004-2005.

A relação entre o 1º e o 4º colocados nas últimas três temporadas é alarmante:

2008-2009: 1º, Inter/84 pontos; 2º, Juventus/74; 3º, Milan/74; 4º, Fiorentina/68;

2009-2010: 1º, Inter/82 pontos; 2º, Roma/80; 3º, Milan/70; 4º, Sampdoria/67;

2010-2011: 1º, Milan/96 pontos; 2º, Inter/76; 3º, Napoli/70; 4º, Udinese/66.

No mesmo período, na Champions League (antigamente Copa dos Clubes Campeões da Europa, depois UEFA Champions League) esses três clubes venceram 8 vezes: Milan (5X), Juventus (2X) e Juventus (1X).

No Campeonato Mundial Interclubes: Milan (2007) e Juventus (2010).

Pela Copa Intercontinental: Milan (3X, 1969, 1989, 1990), Internazionale (2X, 1964 e 1965) e Juventus (2X, 1985 e 1996).

Para a próxima temporada italiana, com intervenção do Ministério dos Esportes – que ficou preocupado com as vantagens para esses três clubes, o modelo de distribuição mudará:

- 40% do total, agora, serão rateados entre todos;

- 30% do total, agora, serão rateados conforme a classificação da temporada anterior;

- 30% do total, agora, serão rateados de acordo com o tamanho da torcida.


INGLATERRA
O campeonato inglês é o mais antigo de todos. A Football League era a entidade máxima de seu futebol e dirigiu a 1ª Divisão do futebol bretão da temporada de 1898-1899 até 1991-1992 (104 anos). Agora, ela dirige a 2ª Divisão, enviando os três primeiros colocados à Premier League e recebendo os três últimos desta.

Em 1992 foi fundada a Barclays Premier League, mais conhecida como Premier League (cujo patrocinador é o Barclays Bank), que passou a dirigir os 20 clubes da 1ª Divisão. A negociação é coletiva, ficando os “direitos” com a ESPN, a BSkyB e a BBC.

Os “direitos” são os mais bem pagos da Europa, ficando assim distribuídos:

- 50% do total são divididos entre os 20 clubes participantes;

- 25% do total são distribuídos pelo desempenho na temporada anterior;

- 25% do total são distribuídos entre as equipes com maior audiência.

Para a temporada 2009-2010, tendo como parâmetro a temporada anterior, os clubes receberam:
- Manchester United, € 58,2 milhões [1º colocado ano anterior];
- Liverpool, € 56,2 milhões [2º];
- Chelsea, € 53,9 milhões [3º];
- Arsenal, € 52,5 milhões [4º];
- Everton, € 50,6 milhões [5º];
- enquanto isso, o “pequeno” Middlesbrough recebeu € 37,5 milhões.

Em 2010 houve acerto para as três próximas temporadas: 2010-11 (recém finda), 2011-12 e 2012-13, por € 893 milhões/ano.

Pela Premier League foram disputadas até agora 19 temporadas, havendo apenas 4 clubes campeões: Manchester United (12X, 1992-93, 1993-94, 1995-96, 1996-97, 1998-99, 1999-2000, 2000-01, 2002-03, 2006-07, 2008-09 e 2010-11; Arsenal (3X, 1997-98, 2001-02 e 2003-04); Chelsea (3X, 2004-05, 2005-06 e 2009-10; Blackburn Rovers (1x, 1994-95).

Destaque-se que o Manchester United foi campeão britânico por 18X, sendo 12X campeão nos 19 anos da Premier League; por sua vez, o Arsenal conquistou o título por 13X, apenas 3X nesse período; o Chelsea foi campeão do país por 4X, 3X nesse período; o Blackburn Rovers chegou 3X ao título, 1X nesse período.

A relação entre o campeão e o 4º colocado nas últimas três temporadas é bem mais próxima:

2008-2009: 1º, Manchester United/90 pontos; 2º, Liverpool/86; 3º, Chelsea/83; 4º, Arsenal/72);

2009-2010: 1º, Chelsea/86 pontos; 2º, Manchester United/85; 3º, Arsenal/75; 4º, Tottenham/70);

2010-2011: 1º, Manchester United/80 pontos; 20, Chelsea/71; 3º, Manchester City/71; 4º, Arsenal/68.

No mesmo período, na Champions League (antigamente Copa dos Clubes Campeões da Europa, depois UEFA Champions League): Manchester United (2X, 1998-99 e 2007-08) e Liverpool (2004-05).

No Campeonato Mundial Interclubes: Manchester United (2008).

Pela Copa Intercontinental: Manchester United (1999).


FRANÇA
O campeonato francês teve sua primeira edição na temporada 1932-1933. Nos anos de conflito da II Guerra Mundial, entre 1939 a 1945, 6 edições não foram realizadas. Portanto, até a temporada passada (2010-2011) foram disputados 72 campeonatos.

Esse campeonato é dirigido pela Ligue 1 (até 2002, era conhecida como Division 1), que foi criada quando do início das disputas.

A partir da temporada 1970-1971 começam os primeiros contratos de “direitos” televisivos. Eles passam a crescer, paulatinamente, nos anos subseqüentes.

Esses “direitos” de TV são negociados em conjunto. O último contrato foi assinado por três temporadas (2009-10, 2010-11 e 2011-12) com duas emissoras: CANALPLUS e ORANGE.

Ele prevê:

- 50% do total são divididos entre todos os clubes;

- 30% do total são distribuídos conforme resultados da temporada anterior;

- 20% do total são distribuídos conforme audiência.

Na temporada 2009-2010, em vista do resultado do campeonato da temporada anterior (mais os índices de audiência), o Olympique de Marseille faturou € 48 milhões/ano; o Bordeauxz, € 45 milhões/ano e o Lyon, € 44 milhões/ano.

A relação entre o 1º e 4º colocados nas últimas três temporadas apresentou:

2008-09: 1º, Bordeaux/80 pontos; 2º, Olympique/77; 3º, Lyon/71; 4º, PSG/64;

2009-10: 1º, Olympique/78 pontos; 2º, Lyon/72; 3º, Auxerre/71; 4º, Lille/70;

2010-11: 1º, Lille/76 pontos; 2º, Olympique/68; 3º, Lyon/64; 4º, PSG/60.

Nos últimos 41 campeonatos (com o advento da venda dos “direitos”) tivemos 40 campeões (na temporada 1992-93, devido a “falcatruas”, o Olympique de Marseille perdeu o título conquistado e foi cumprir pena de 2 anos na 2ª Divisão):

- Olympique de Marseille, 7 títulos (1970-71, 1971-72, 1988-89, 1989-1990, 1990-91, 1991-92 e 2009-10);
- Lyon, 7 títulos (2001-02, 2002-03, 2003-04, 2004-05, 2005-06, 2006-07 e 2007-08);
- Nantes, 6 títulos (1972-73, 1976-77, 1979-80, 1982-83, 1994-95 e 2000-01);
- Mônaco, 5 títulos (1977-78, 1981-82, 1987-88, 1996-97 e 1999-2000);
- Bordeaux, 5 títulos (1983-84, 1984-85, 1986-87, 1998-99 e 2008-09);
- Saint Étienne, 4 títulos (1973-74, 1974-75, 1975-76 e 1980-81);
- PSG – Paris Saint Germain, 2 títulos (1985-86 e 1993-94);
- Outros: Strasbourg (1978-79), Auxerre (1995-96), Lens (1997-98) e Lille (2010-11).

Na Champions League, apenas o Olympique de Marseille conquistou um título (em 1992-93), mas não pode participar da Copa Intercontinental em vista de punição da FFF (o Milan – segundo colocado foi, em seu lugar, perdendo para o São Paulo).


ALEMANHA
O campeonato alemão é dividido em dois períodos:

- o primeiro, pré-BundesLiga, de 1903 até 1963;

- o segundo, da BundesLiga, da temporada 1963-1964 até a temporada recém finda (os clubes da antiga Alemanha Oriental estrearam na BundesLiga a partir da temporada 1991-1992).

Os principais vencedores dos 47 campeonatos disputados na BundesLiga: Bayern Munique (21X); Borussia Mönchengladbach (5X); Borussia Dortmund (4); Werder-Bremen (4X); Stuttgart (3X); Hamburg (3X); Köln (2X) e Kaiserslautern (2X); outros (3).

A negociação dos “direitos” televisivos é feita em conjunto. O último contrato foi assinado por três anos, abrangendo as temporadas 2010-2011, 2011-2012 e 2012-2013. A empresa que possui os “direitos” é a PREMIER AG. O percentual de 70% fica para os 18 clubes da 1ª Divisão e 30% para os 18 da 2ª Divisão.

Na 1a Divisão o “bolo” é repartido da seguinte forma: 50% do total são divididos entre todos os 18 clubes; os outros 50% são distribuídos de acordo com a classificação na temporada anterior e índices de audiência.

Nas três últimas temporadas a classificação do campeonato foi mais bem distribuída:

2008-2009: 1º Wolfsburg/69 pontos; 2º, Bayern München/67; 3º, Stuttgart/64; 4º, Herta Berlin/63;

2009-2010: 1º, Bayern München/70 pontos; 2º, Schalke04/65; 3º, Werder-Bremen/61; 4º, Bayern Leverkusen/59;

2010-2011: 1º, Borussia/65 pontos; 2º, Bayern Leverkusen/58; 3º, Bayern München/51; 4º, Hannover/50.

Na temporada 2010-2011, tendo em vista a classificação, mais os índices de audiência do campeonato anterior: Bayern München recebeu € 30 milhões/ano; o Schalke 04 recebeu € 29 milhões/ano; e os demais clubes (16) € 20 milhões/ano

Na Champions League (antigamente Copa dos Clubes Campeões da Europa, depois UEFA Champions League) Bayern München, 4 títulos (1973-74, 1974-75, 1975-76 e 2000-01); Borussia Dortmund (1996-97) e o Hamburg (1982-83).

Pela Copa Intercontinental: Bayern München, 2X (1976 e 2001); Borussia Dortmund (1997).