terça-feira, 16 de março de 2010

A criança que eu era

Quando eu era criança, eu tinha um sonho: ver um episódio como este que aconteceu ontem, às 19:30, na Rua dos Andradas.
 
Pois são 19h30 e eu estou na Rua dos Andradas. Na minha frente, um negrão gordo caminha aborrecido por entre as mesas de plástico que congestionam a calçada em frente à Casa de Cultura. Caminha meio rengo, com os chinelos despencando dos pés, e leva pela coleira um cachorro de pelo sujo. É um mendigo. Daqueles que puxam conversa e vivem da arte de importunar os que passam por perto.
 
De repente, o negrão gordo descobre do outro lado da rua um office-boy -- pelo menos tinha cara de office-boy -- andando com a camiseta do Grêmio. Para e olha com olhos de consternação, como se fosse um tio do SOE flagrando uma semvergonhice no corredor do colégio. Fica ali, olhando por alguns segundos, até que berra em meio à multidão que engole chopes na calçada:
 
--- OLHA LÁ! OLHA LÁ! SETE ANOS SEM TÍTULO! SETE ANOS!
 
E desata a rir uma risada grave e melodiosa.
 
O office-boy acusa o golpe. Para no outro lado da rua e procura pelo detrator. Eu, achando a maior graça, diminuo a marcha e fico olhando. Ao que percebo um detalhe interessante: nas mesas das ruas, sentadas, todas as pessoas estão, como eu, olhando para o negrão gordo. Algumas riem, outras apenas esperam. Mas ninguém ousa retrucar o negrão. Talvez por ele ser gordo. Talvez por ele ter um cachorro de pelo sujo nas mãos. O certo é que os bares da Rua dos Andradas são, neste momento, uma imensa plateia esperando o espetáculo do seu Rei Momo maltrapilho. E ele continua:
 
--- SETE ANOS SEM TÍTULO! VÊ SE EU POSSO! HAHAHAHA!.
 
No outro lado da rua, o office-boy gremista faz um sinal com o dedo e retoma o passo. Depois se vira para trás e berra: "UM A UM COM VERANÓPOLIS!". Mas nada disso demove o negrão gordo de seu mantra oficial:
 
--- O CARA TÁ SETE ANOS SEM TÍTULO! SETE ANOS!
 
Enquanto isso, as pessoas nas mesas -- cinquenta, no mínimo -- seguem impassíveis à espera de um desfecho. Nenhuma delas fala nada contra o negrão gordo. Nem mesmo um gremista se insurge contra o vozeirão que corta a noite em frente à Casa de Cultura. E é neste ínterim que eu resolvo intervir simpaticamente:
 
--- Ô meu, tu tá errado.
 
O negrão gordo me encara, surpreso.
 
--- Tu tá errado. Eles ganharam a Taça Fernando Carvalho.
 
Para minha surpresa, não é apenas ele que explode numa risada grotesca. Nas mesas dos bares, a grande maioria dos presentes riem juntos conosco. São todos colorados como eu e o negrão gordo. Os outros, em minoria, estão quietos. Não falam nada. Não vale a pena.
 
Quando eu era criança, eu tinha esse sonho. Ontem, às 19:30, eu vi esse sonho se realizando. E quase pude sentir a criança que eu era indo embora junto com aquele office-boy que, humilhado, dobrou a esquina sem dizer nada. 
Conselheiro Mov. Internet/BV

2 comentários:

Unknown disse...

Pô..são histórias assim que tornam agente mais colorado. Títulos ajudam, mas ter uma história bonita ñ tem preço. Cresci ouvindo histórias assim, o que me ajudou a manter o orgulho em ser torcedor do Internacional, mesmo nos anos 90.
Aconteceu comigo...Tava embocando num boteco pra jogar uma sagrada sinuca, manto vermelho no dorso, era copa do Brasil de 2009. Chega o compadre(apelido do indivíduo) gargantiando alguma coisa a favor das gazelas, mandei se calar pq morto ñ fala. E entrei para praticar o esporte. Detalhe, Compadre é negro.
De dentro do bar ainda ouvia as provocações do gazela, parei o jogo, fui defender minha bandeira...quando estou na porta do rescinto vem descendo um gari (tb negro) que pelo jeito tinha houvido tudo o que o banana de pijama havia falado...vinha varrendo num sol que castigava. Parou na frente do bar e indiguinado:
"-Negro gremista pra mim é capitão do mato, como é que tu tem coragem de torcer pra um time que pisa em cima de nós? Tu vai lá na torcida e me chama de macaco negão? tu ensina teus filho a me chamar de macaco! Tu tem vergonha de alguma coisa! Pra mim tu ñ é homem. Que tua mãe ia dizer? teu avô então?..Compadre tentou indagar:
- Mas acabou, agora nós samo livre.
De bate pronto o Garí:
- Eu sou livre negão, tu ficou na sezala.
E seguiu varrendo até desaparecer na multidão, dei meia volta continuei o jogo...ñ ouvi mais nenhuma palavra do Compadre naquele dia, nunca mais ouvi uma palavra do compadre sobre futebol...

Polaco na Serra disse...

Repetindo o comentário que deixei no AV:
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Bah Andreas!!! Cheguei a arrepiar velho... quem, assim como eu, que não vivenciou a década de 70 (sou de 1978) e teve o desprazer e coragem (tem que ter peito meu galo!!!) de torcer na década de 90, sabe exatamente o que vc quiz dizer... me escorei (e amparei) muito no tri que eu nunca vi, em grenais e em várias outras desculpas e artifícios para aguentar o tranco. Mas é isso aí, previlegiados é esta garotada de hoje que está rindo a toa. Sorte nossa!!!

Grande abraço e obrigado pelo texto.

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